quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Suma Teológica, sistematizada (Pars Secunda) - Fr. J. J. Berthier (redesenhado por Lucas Fonseca dos Santos)

Segunda parte da serie de postagens dos esquemas da Suma Teológica, feitos pelo Fr. Berthier, e redesenhados por mim. Nesta postagem, estão os esquemas de toda a segunda Parte. Espero que ajude aos que estudam o tema.
 TABULA VII
 TABULA VIII
 TABULA IX
 TABULA X
 TABULA XI
 TABULA XII
TABULA XIII e TABULA XIV
TABULA XV
TABULA XVI
TABULA XVII e XVIII

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

A educação da criança, segundo Helena Lubienska de Lenval.


No livro de Helena Lubienska de Lenval, A Educação do Homem Consciente (KIRION, 2018), temos uma exposição completa não apenas de pedagogia, mas, transcendendo esta, entra nos mais relevantes temas de antropologia filosófica enquanto esta diz respeito à educação.
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Helena Lubienka de Lenval (1895-1972)

Toda educação tem um objetivo, e cada pedagogia que se formula tem ao menos subjacente à ela alguns pressupostos antropológicos que determinam algumas respostas. Qual é o fim da educação? Quais os métodos a serem usados na educação? Essas perguntas poderiam ser respondidas com várias respostas diferentes e divergentes entre si. Por exemplo, se poderia dizer que o fim da educação é fornecer ao ser humano alguma utilidade social em seu ambiente, e os métodos serão simplesmente fornecer meios adequados para que seja útil, e neste caso, temos pressuposta toda uma ética social de matriz utilitarista. Em suma, toda educação tem de ter um ponto de partida para que se possa desenvolver o homem,  tem de responder quem é o homem e quais são seus fins, e dessa resposta há de depender todos os desenvolvimentos posteriores.

No caso de Lubienska, o ponto de partida de sua pedagogia é a afirmação de que o fim de toda a educação é estabelecer no homem a primazia do espirito. Contrariamente às pedagogias utilitaristas e materialistas, o educador que tem por objetivo a primazia do espirito
“Não pode, portanto, deter-se nos resultados imediatos, materiais e intelectuais. Seu objetivo é fazer de seus alunos seres conscientes, isto é, responsáveis.Sua tarefa é desenvolver a consciência. Sim, quer se trate de habilidade manual ou de vida prática, quer de cultura ou de vida intelectual, todo o esforço deve levar a um desenvolvimento da consciência. E para esse fim, tudo lhe será bom, tanto o mais humilde exercício de marcha como a mais difícil especulação matemática. ” (LUBIENSKA, 2018, p.29)  
Aqui temos de um ponto de partida antropológico. Se compreendemos que o ser humano, além de sua evidente dimensão corporal, possui uma dimensão espiritual, cujas operações transcendem à capacidade material e elevam o ser humano de uma maneira singular, esta dimensão possui uma certa primazia – que não exclui a dimensão corporal, mas a ordena à espiritual, como o imperfeito se ordena ao perfeito. Esta compreensão do ser humano foi também bem exposta por S. Tomás de Aquino (1225-1274)– que parece ser um bom complemento e aperfeiçoamento para a antropologia que Lubienska formula - , que em seu Tratado do Homem, explica que a dimensão anímica do homem esta substancialmente unida a sua dimensão corporal: a alma é forma do corpo, dá o ser ao corpo (ato de ser), informa-o na sua estrutura íntima e de certa forma depende dele para que forneça dados sensíveis para o conhecer (nada no intelecto que antes não tenha estado nos sentidos). Assim, a dimensão corpórea não é um simples instrumento acidental da alma, mas sim substancialmente unido à ela, de tal forma que só se diz ser pessoa o ser humano completo, alma e corpo; a pessoa não é uma alma, um self, uma consciência “presa” dentro de um corpo, mas ela de certa forma é este corpo.
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Desta união substancial, essencial, entre as dimensões anímicas e corpóreas, podemos concluir que não basta que sejamos intelectualmente educados apenas, tampouco apenas corporalmente, mas é preciso que sejamos educados de forma integral, em todos os aspectos da realidade humana – corporal, intelectual e espiritual -, sem reduzi-la a nenhum de seus aspectos particulares. É necessário ter em mente um principio que Martine Gilsoul, estudiosa de Lubienska, chamou de Princípio da Coesão, isto é, “a pedagogia deve reunir e realizar imperativamente a unidade completa da personalidade, que só pode ser alcançada através do trabalho de desenvolvimento simultâneo da vida corporal, psíquica e espiritual.” (GILSOUL, in LUBIENSKA, 2018, p. 17)

É preciso que todas as atividades, portanto, visem o estabelecimento no homem da primazia do espírito, isto é, de alguma forma sejam ordenadas a isto. Assim, a atividade corporal serve ao espírito e a atividade psíquica também pode faze-lo. Vejamos de que forma isto se dá principalmente na educação infantil, área na qual Lubienska tornou-se célebre.
 
A primeira conclusão que se impõe é de que a nossa educação corporal, motora, muscular, pode servir e se ordenar para o cultivo da inteligência. E para a criança, esta conclusão é ainda mais expressiva: uma vez que esta não é ainda capaz – nos primeiros estágios de desenvolvimento – de formular palavras e frases que expressariam seu mundo interior, expressa pelos gestos e movimentos a sua interioridade; por essa razão, nestes estágios, a vida do intelecto necessita da atividade motora para se desenvolver, e a atividade cerebral e muscular são indissociáveis.

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Dra. Maria Montessori (1870-1952)
Maria Montessori – grande fonte de inspiração para Lubienska -, ao dizer que “ a criança compreende mexendo-se” (apud LUBIENSKA, 2018, p. 37), faz uma crítica firme às pedagogias do que ela chama de Nova Escola, que acaba por dissociar a atividade intelectual e a atividade física em disciplinas diferentes, como se fossem compartimentos que não se comunicam, o que acaba por gerar desinteresse na criança. A educação será tão mais completa quanto mais capaz for de integrar todos os aspectos da realidade humana – corporal, intelectual e espiritual -, com vistas a um fim e principio específico: a primazia do espirito, na formação de pessoas conscientes e responsáveis.
A criança precisa, na sua educação motora, ter domínio de si e consciência dos outros. Lubienska, seguindo o método montessoriano, sugere para esta educação alguns exercícios de marcha, de dança e de mímica, que auxiliam a conseguir consciência corporal, e que permite que controle e dominem a si mesmas. Além dessa educação e domínio motor de si mesmo, é preciso ensinar a criança a ter consciência dos outros, que são
“todos aqueles que, de perto ou de longe, nos rodeiam. Devemos aprender a pensar neles, a nos incomodarmos por eles: mesmo quando não os vemos, quando nos são desconhecidos. Praticaremos assim uma polidez universal e desinteressada, que será uma tradução prática do mandamento da caridade. De fato, como atualizar a nossa boa vontade de amar os homens, senão, primeiramente, não os perturbando?” (LUBIENSKA, 2018, p. 41)
Aprender a andar sem fazer ruído, a saudar uma pessoa, a fazer atividades úteis para os outros, tudo isso além de formar a criança na sua mobilidade, já é de alguma forma um preâmbulo para a educação moral. E mais: até mesmo para a educação religiosa, porque o sentido de respeito é fundamental para compreender sentido de sagrado, para preparar o comportamento da criança para participar da missa, do respeito e reverencia que deve ter ao entrar na Igreja, etc. Dessa forma, essa atitude de reverencia para com os outros, é como que uma antecipação para as virtudes morais que serão amadurecidas posteriormente:
“Incomodar-se pelos outros é manifestar respeito por seu trabalho, seu repouso, seu pensamento e seu sofrimento. Dominar-se em atença aos outros é colocar em prática a boa vontade de ama-los, antes mesmo de a formular; é preparar o molde em que mais tarde tomará forma a virtude. Por isso, nada há mais tocante do que ver os esforços de uma consciência, apenas desabrochada à luz, que luta por manobrar um corpo inepto, de maneira a não incomodar os outros, praticando assim, talvez sem se dar conta, a mais autentica caridade.” (LUBIENSKA, 2018, p. 44)


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Em segundo lugar, a atividade psíquica tem de estar a serviço do espírito. E para isto, é preciso ordenar o caos e a pluralidade de dados que chegam aos sentidos e à inteligência, para que possam servir para o desenvolvimento do homem consciente. É necessária, portanto, uma educação sensorial, que saiba ordenar, classificar, distinguir as diversas experiências que se apresentam; é preciso desenvolver essa educação para a inteligência matemática, que há de aprender a distinguir, comparar e medir, e os métodos para isto, quanto mais ativos, mais sensíveis, melhor serão para a criança, e por isso, cubos, barras, e semelhantes são a melhor forma de despertar o gosto na criança por essas atividades. Para ensinar as palavras, a autora ensina que

“Urge fazer as crianças compreenderem que o modo indica uma maneira de ser, de sentir, digamos um estado de alma, representável por meio do gesto. Não consideramos os tempos que se referem à duração; fixamos a atenção no aspecto psicológico do verbo, que se traduz nos modos.” (LUBIENSKA, 2018, p. 88, grifo nosso)


E continua, dizendo que “[a]ssimiladas desse modo pela reflexão,as formas gramaticais impõe-se como uma necessidade psicológica e já não se apresentam como um conjunto de regras arbitrárias inventadas pelos adultos para aborrecer as crianças.” (LUBIENSKA, 2018, p. 89)

E por fim, um dos pontos importantes para a pedagogia de Maria Montessori – mestra de Lubienska -, é a importância do silencio. De cultivar na criança a capacidade de silenciar, de recolher-se, de dominar a si mesma para saber silenciar nos devidos momentos. Este exercício, mais do que uma atividade passiva, de simplesmente ausência de som, pressupõe, pelo contrario, um grande esforço de concentração, de controle motor e intelectual, que é condição para qualquer desenvolvimento e aprendizado intelectual posterior; e por isso, se diz que o progresso da criança se mede pelo progresso da capacidade de silenciar. E essa atividade de silencio, muito ao contrário de oprimir as disposições ativas da criança e cercear sua liberdade, dá uma liberdade maior para ela, uma vez que a torna consciente e a ajuda em seu desenvolvimento; por isso, a autora contrapõe-se firmemente a esta crítica:


“Muitas vezes faz-se uma ideia falsa da liberdade e inculcam-na às crianças: a liberdade seria a ausência de constrangimento; uma atividade desregrada, sem freio nem finalidade. Para crianças cravadas em bancos, obrigadas a sofrer passivamente uma onda de palavras, liberdade significa o direito de correr gritando. Ideia puramente negativa, reação violenta contra um atentado crônico à liberdade. Porque a liberdade essencial, indispensável ao homem é a de se mover, agir e pensar segundo o próprio ritmo individual.        
A disciplina não é oposta à liberdade, mas solidária com ela.O homem só é livre na medida em que é disciplinado. Considerai o dançarino, como salta no espaço; o pianista, como seus dedos voam sobre o teclado; o nadador, como desafia as profundezas do mar. Para se tornar livre, o homem deve disciplinar-se: ‘minha alma esta sempre nas minhas mãos’, dizia o salmista. 
Em linguagem pedagógica, traduzimos: minha atividade é sempre dirigida por minha vontade consciente. Respeitar a liberdade da criança é ajuda-la a disciplinar-se; é fazer-se aliado de sua energia centrípeta contra suas energias centrifugas; é guia-la para o cumprimento do seu destino de homem consciente e responsável.” (LUBIENSKA, 2018, p. 97)
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Podemos considerar também, em próximas reflexões, a maneira como Lubienska aplica esses princípios na formação religiosa da criança. Neste quesito, a autora é uma das mais importantes defensoras da liturgia como método pedagógico por excelência, e por isso, a pedagogia de matriz católica tem muito a aprender com ela. 





sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Suma Teológica, sistematizada (Prima Pars, q. 1-119) - Fr. J. J. Berthier (redesenhado por Lucas Fonseca dos Santos)

Esta obra do Fr. Berthier tem ajudado a sistematizar os estudos que tenho feito da Suma Teológica. É uma obra rara, cuja última edição foi em 1903. Nos arquivos digitais, a qualidade da imagem é péssima e estou fazendo o esforço por redesenhar os mapas à mão, e repassa-los para este blog para que possa ajudar mais pessoas neste estudo. Fiz a cópia do latim original, e por isso, maior parte dos mapas estão em latim, mas há uma certa confusão: em alguns desenhos, acabei traduzindo algumas partes para o português sem querer. Esperava terminar a cópia, e depois redesenhar os mapas, ja traduzindo, mas deixarei para traduzir posteriormente o que falta.


Tabulae systematicae et synopticae totius Summae theologicae : juxta ipsammet doctoris Angelici methodum strictius et clarius exactae (Fr. J. J. Berthier) (1903). Disponivel em: https://archive.org/details/tabulaesystemati00bert



TABULA I et TABULA IV
TABULA II

TABULA III

TABULA V

TABULA VI

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O que é ser um tomista? (Santiago Ramirez, O.P)

TRADUÇÃO DE TRECHOS DO ARTIGO DO FREY SANTIAGO RAMIREZ. RETIRADO DE: http://www.traditio-op.org/biblioteca/Ramirez/Que_es_un_tomista_Jacobus_M._Ramirez_OP.pdf

TRADUÇÃO: LUCAS FONSECA DOS SANTOS

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Como a fecundidade é uma propriedade da vida perfeita e a vida não existe em abstrato, mas sim em um sujeito vivo, é necessário concluir que a fecundidade do tomismo deve brotar da vida tomista perfeita existente nos tomistas perfeitos.

Por tomista não entendemos uma palavra vazia, (...) mas sim aquele que participa ou tem ou aspira ter o espírito de Santo Tomás de Aquino, e que procura, o quanto puder, penetrar mais no obrar e no seu espirito e em conformidade com ele.

Daí se conclui que a doutrina filosófica de Santo Tomás não é a filosofia de um homem só, mas sim de toda a humanidade pensante, depurada e elevada à Deus e julgada a partir Dele; e o mesmo se pode dizer de sua teologia, que não é a teologia de um Doutor particular, mas a de todo o cristianismo, sistematizada e unificada em Deus, e animada pela divindade mesma reveladora, que é seu objeto formal.

Em Santo Tomás não é possível separar sua oração de seu estudo, como não é possível separar sua sabedoria de sua santidade, pois santificando-se fez-se sábio e estudando se santificou; nele não se explica sua ciência sem sua oração, nem sua oração sem sua ciência.

Se nos é licito nos expressar assim, Santo Tomás é um caso típico e concreto de união e da harmonia entre a razão e a fé, entre a santidade e a ciência, entre a Filosofia e a Teologia; ele mesmo é a encarnação nata de seu próprio sistema, e por isso o primeiro tomista e o tipo de tomismo puro e integro é o próprio Santo Tomás em pessoa. 

Santo Tomas  é um espirito enamorado da verdade em todas as suas manifestações: em primeiro lugar, da Verdade subsistente e pessoa, que é o Verbo de Deus, e depois, de toda verdade derivada desse Verbo, ja como impressão direta na Revelação cristã, ja como presente nas obras da criação e nos filósofos, que são seus leitores e interpretes.

Desse amor intenso à verdade nasce sua laboriosidade imensa, que lhe faz busca-la por todos os meios possíveis, sem descanso nem repouso; isto é, pelos sentidos e pela razão, pela leitura e pela meditação, pelo estudo e pela oração; em uma palavra: busca-la com toda a sua alma, com todas as suas potencias e com todas as suas forças. Por isso, quando no dia 6 de dezembro de 1273 deixou de escrever e retirou seus instrumentos de escritura, estando como que fora de si, arrebatado em Deus, Frei Reginaldo pensou que havia ficado louco de tanto trabalhar.

Deste mesmo amor se compreende sua amplitude de critério e seu respeito e tolerância para com todos os pensadores; porque em todos eles reverbera de algum modo a Verdade Eterna, que illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum; mas precisamente porque busca, em primeiro lugar e sobretudo, a Verdade subsistente e pessoal, não a perde nunca de vista, e por isso tende sempre a ver todas as verdade derivadas nessa Verdade única, que é por quem todo ser e toda verdade se tem feito, e por isso aspira como a seu desideratum o plano divino pelo qual tudo foi criado, tanto na ordem da natureza quanto na da graça.

Em Santo Tomás, não há dualidade de vidas irredutíveis, uma especulativa e outra afetiva, mas as duas, elevadas a uma perfeição sobre-humana, se fundem e se completam mutuamente, resultando uma só vida integral perfeitíssima (...).    

Segue-se dai que o espirito de Santo Tomás é um espírito universalista e magnânimo, não pequeno nem singularista; mas, ao mesmo tempo e sobretudo, é um espirito eminentemente sintético e profundo, penetrante até as últimas raízes das coisas, como o Verbo mesmo que cria o ser e ve todas as coisas no Ser subsistente, fonte de todo ser.  
Em uma palavra: a obsessão do espirito de Santo Tomás é o Verbo de Deus, de quem teve a sorte de ouvir: "Bene scripsisti de me, Thoma. Quam ergo mercedem accipies?" Santo Tomás não vacila em responder, porque tinha feito essa decisão desde muito pequeno: "Non aliam, nisi Te, Domine!". Do verbo tirava todo o seu saber como de sua primeira fonte, e sobre o Verbo fundou toda a sua ciência como sobre seu primeiro principio; por isso sua doutrina é eterna como o Verbo, e imóvel e verdadeira como Ele. Nada estranho, então, que seus biógrafos lhe chamassem de órgão do Verbo e que a Igreja lhe honre com o título de Doctor Veritatis.
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A amplitude do espirito tomista exige que o tomista o estude todo,no máximo possível, em suas próprias fontes, à imitação do Santo Doutor. Deve, pois, conhecer a funda a Sagrada Escritura e estar ciente dos adiantamentos exegéticos dos últimos tempos; deve dominar os Padres da Igreja, em seu aspecto doutrinal e crítico, não com a superficialidade de um simples historiador, mas sim com a profundidade de um teólogo; deve estar familiarizado com todos os teólogos antigos e modernos, hostis a Santo Tomas e defensores dele; deve possuir muito bem a Filosofia antiga e a de seu tempo, a sã e a falsa, para aproveitar-se daquela e impugnar a esta e saber demarcar com verdade e acerto os limites da fé e da razão; em suma, deve trabalhar por dominar tudo a partir do Verbo de Deus, como o fez Santo Tomás, que dominou toda a ciência de seu tempo e fez com que ela servisse a Deus.

Um só homem não pode por si mesmo abarcar tudo isto, mas deve trabalhar o possível para aproximar-se deste ideal.  Depois de um estudo de conjunto, que todos podemos fazer, é preciso especializar-se e fazer monografias completas sobre pontos determinados, segundo todas as exigências do ideal tomista. Isto é possível realizar, e do conjunto dessas monografias bem feitas sairá um tomismo completo, verdadeiramente ampliado. Por isso, se é irrealizável um tomista absolutamente perfeito, é por outro lado possível os tomistas perfeitos enquanto corporação. Ademais, é sabido que a ideia de perfeito é relativa e admite infinidade de graus: quando falamos do tomista perfeito, entendemos uma perfeição humana, segundo a possibilidade da nossa fraca natureza. Nem queremos dizer que o tomista perfeito leia e estude tudo, absolutamente tudo, inclusive as vulgaridades de todos os livros, folhetos e artigos de vulgarização, que em nossos tempos são infinitos; mas sim que nos referimos às obras magistrais e de fundo.

Para compreender devidamente o tomismo, tal como o concebeu Santo Tomás, e amplia-lo ao mesmo tempo, é preciso fazer simultaneamente um estudo de penetração e comparação da doutrina tomista em Santo Tomás e em seus continuadores até nossos dias. Pela comparação com outros sistemas e doutrinas veremos suas fontes, seus progressos e seus desvios através dos séculos, e assim abriremos o caminho para penetrar na alma ou forma substancial do tomismo puro.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Conselhos de Hugo de São Vitor aos estudantes (Parte I)

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Quem quer que tenha lido bons livros sobre filosofia medieval, ou bons livros sobre história da educação, certamente já deve ter lido o nome de Hugo de Sao Vitor (1096-1141) entre um dos grandes - ou talvez até mesmo um dos maiores - educadores que o período medieval nos legou. E entre suas obras mais conhecidas, se destacam seu opúsculo "Sobre o Modo de Ler e Meditar" e o "Didascálicon - A Arte de Ler"; assim sendo, tentaremos neste post trazer algumas das principais recomendações do autor aos estudantes, considerando alguns métodos contemporâneos que o complementam de certa forma.

Para os leitores do mestre do mosteiro de São Vitor, algo que deve ter impressionado de inicio em sua obra é a brevidade de seus escritos. Recordo-me que quando tive em mãos o opúsculo "Sobre o Modo de Ler e Meditar" pela primeira vez, tive uma certa decepção ao ver que uma obra tão famosa e citada possuía apenas 8 páginas - o que me levou a perguntar-me se aquilo não era apenas um trecho de uma obra maior - e que ainda assim, eram ainda mais breves os capítulos e ao termino de cada um, sentia uma vontade de mais explicações, mais longas, mais elegantes estilisticamente, etc. Quando tive em mãos o "Didascálicon", fiquei animado por ser já um tratado que me parecia mais extenso, com vários livros dentro do tratado, com vários capítulos dentro de cada livro, e tudo o mais de me fez crer que seria a tão sonhada expansão do Opúsculo. Novamente, o que vi foram inúmeros capítulos de extensão de meia página à duas no máximo, que se por um lado ainda me deixava com uma certa "sede" de maiores explicações, trouxe ensinamentos que todo estudante poderia aproveitar. E este é o objetivo deste post.

Para aquele que busca se aperfeiçoar no estudo da sabedoria, é necessário que saiba três preceitos preliminares, e como "um pequeno erro no inicio leva a um grande erro no fim", é preciso bem considerar previamente (i) o que devemos ler, (ii) a ordem com que devemos ler e (iii) como devemos ler. Em primeiro lugar, a matéria do estudo, em segundo  a hierarquia entre essas matérias, distinguindo quais ciências pressupõe outras, quais são anteriores ou posteriores, quais são as partes subjetivas e potenciais de cada uma e de que forma estudar cada uma dessas ciências, distinguindo metodologias de investigação de acordo com a natureza de cada objeto de estudo e com subordinação dessas ciências.
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Poderíamos até mesmo adicionar - por nossa conta, não pelo texto explícito do mestre - um quarto conselho prévio, de natureza moral para o aprendiz. Primeiramente, ao considerar a condição humana, decaída, o amante da sabedoria busca com o auxilio divino reparar a semelhança divina (uma vez que somos Imago Dei); e dois são os exercícios que nos ajudam a este fim: (a) a investigação da verdade e (b) a prática das virtudes. E percebam que são duas dimensões que estão intimamente unidas, inseparáveis, uma vez que não pode ser verdadeiro amante da sabedoria aquele que contra esta mesma sabedoria pratica imoralidades, contra a reta razão e em última análise contra Aquele que é a Sabedoria mesma; por outro lado, só pratica as virtudes aquele que é de certo modo sábio, e tem sua alegria no agir conforme a razão, e que é - para usar termos mais precisos - prudente (virtude intelectual). Dessa forma, agir conforme a razão pressupõe uma certa virtude intelectual - prudencia - , que se dirige para a reta decisão segundo uma reta apreensão da realidade, e a reta apreensão da realidade por aquele que investiga a verdade, o leva a agir conforme a verdade apreendida, sendo sábio em suas considerações e decisões. É intima a relação entre a vida moral e intelectual, indistintas. E é precisamente esta verdade que o Pe. Antonin Sertillanges expressa em seu clássico A Vida Intelectual (É Realizações, 2010)
“A virtude não é a saúde da alma? E quem ousará dizer que a saúde não interfere em nada na visão? Perguntem ao oculista. Um clínico inteligente não se limita a medir a curvatura do cristalino e a escolher armações de óculos; (…)ele se preocupa com seu estado geral,com sua dentição ,com seu ritmo de vida, com suas vísceras. (…)
Como farão para pensar adequadamente com uma alma doente,com um coração triturado por vícios,dilacerado pelas paixões, desorientado por amores violentos ou culpados? Há um estado de lucidez e um estado de cegueira da alma,dizia Gratry,um estado são e,consequentemente, sensato, e um estado insensato. ‘O exercício das virtudes morais’,nos diz por sua vez Santo Tomás de Aquino, ‘virtudes pelas quais são refreadas as paixões ,importa sobremaneira à aquisição da ciência’ . (SERTILLANGES, 2010, p. 33)
O segundo pressuposto moral que poderíamos deduzir da obra de Hugo de São Vitor, é uma atitude profundamente apaixonada pela sabedoria e uma humildade realista de compreender que ela nunca será nesta vida plenamente alcançada. Saber que " a verdade total esconde-se de nós, porque quanto mais nosso espírito arda de amor, e quanto mais profunda se torne a busca pela verdade, mais difícil sua compreensão plena" (Didascálicon), e nisto consiste uma certa atitude tanto do filósofo quanto do teólogo - que em seu tempo não se distinguiam -, porque o coração destes tanto mais se inflama e quer buscar a Verdade amada quanto mais lhe é difícil compreender.

As pequenas verdades investigadas e conhecidas inflamam o coração para que saiba que ainda muito resta a conhecer, e mesmo este muito não será plenamente conhecido. E aqui, o perfeito filósofo - que é, como sempre se repete, um teófilo, alguém que ama a Deus - chega a um ponto central, que foi perfeitamente percebido por Santo Tomás de Aquino em um dos pontos que podemos dizer "quase místico" de sua obra, no qual explica sobre a hierarquia entre intelecto e vontade: quando o objeto do conhecimento é muito nobre, mais vale ama-lo do que conhecê-lo, mas quando o objeto não é tão nobre, mais vale conhecê-lo do que ama-lo. O Aquinate diz:
Quando a coisa na qual está o bem é mais nobre que a própria alma em que se encontra a razão dessa coisa então relativamente a essa coisa, a vontade é superior ao intelecto. Quando, porém, a coisa na qual está o bem é inferior à alma, então relativamente, também, a essa coisa, o intelecto é superior à vontade. Por isso, é melhor amar a Deus do que conhecê-Lo, e inversamente vale mais conhecer as coisas materiais do que ama-las." (Summa Theol. I, Q. 83, art. 3, respondeo)
Dessa forma, quando se chega ao ponto em que vê a vastidão da verdade que supera nosso entendimento, a atitude devida é o amor. E mais ainda, quando se percebe que há uma Verdade Encarnada, Pessoa, pela qual todas as coisas foram feitas (São João, capitulo 1), é mais nobre que nos prostremos em adoração e amor do que busquemos disseca-la tal como um sapo de laboratório. Esta é a atitude do sábio, que vê no amor a resposta adequada a esta Verdade que supera infinitamente sua capacidade de entendimento, mas que ao mesmo tempo, pela graça batismal habita no mais íntimo do seu íntimo (intimior intimo meo).

Essa atitude inicial do filósofo perante à realidade é de certa forma uma atitude religiosa, uma atitude que passando do conhecimento das realidades naturais, busca alcançar as sobrenaturais, buscando as verdades que passam, alcançar as que não passam, compreendendo com S. Tomás que o conhecimento é causa do amor e que à Verdade que nos supera infinitamente a atitude adequada é o amor e o temor de Deus, que princípio da Sabedoria (Prov. 9,10).

Passando desses dois pressupostos morais ao estudo da filosofia - que não estão expostos desta forma em seus escritos, passemos ao estudo das diversas ciências segundo os 3 preceitos prévios para a leitura (os preceitos morais não estão incluídos textualmente como anteriores, mas o que fizemos foi uma reconstrução a partir de outras partes de seus escritos). E como precisamos em primeiro considerar os objetos do estudo, i.e. o que iremos estudar, é necessário antes distinguir as ciências. A divisão inicial seria quadripartite, sendo a ciencia (filosofia) dividida em (1) Teórica, (2) Prática, (3) Mecânica e (4) Lógica.

A ordem do estudo dessas ciências, tem por inicio a (4) Lógica, que segundo o autor, é "a última no tempo, mas a primeira na ordem do estudo". Para os acostumados com o que chamamos de Educação Clássica ou Liberal que a Lógica seja a primeira na fila não é estranho, e de fato, o programa de estudos das 7 Artes Liberais inicia-se com o Trivium, que prepara a inteligência do estudante para os estudos mais avançados. A Lógica por sua vez possui 3 partes: (a) Gramática,  (b) Dialética e (c) Retórica; esta parte inicial é pressuposta e sustenta os estudos posteriores. Por acaso pode o estudante compreender a Teologia, Filosofia Natural, a Matemática, por exemplo, sem saber como formular um texto estruturalmente coeso segundo letra, sílaba, palavra e frase (gramática)? Ou sem saber distinguir entre uma falácia e um argumento validamente construído segundo uma demonstração por necessidade, ou por probabilidade (Dialética)? ou sem saber expressar os conteúdos mentais de forma coerente, válida e convincente para os que os escutam (retórica)? Essas disciplinas seriam então propedêuticas, apesar de serem as últimas no tempo, segundo o autor, uma vez que a análise lógica do conteúdo de um discurso sempre se dá após a consideração do seus conteúdos e argumentos.

"As sete artes são como instrumentos e treinamentos, pelos quais se prepara uum caminho para o espírito alcançar o conhecimento da verdade."
"O fundamento de toda a doutrina se encontra nas sete artes."
(Hugo de São Vitor - Didascálicon: A Arte de Ler) 
A segunda na ordem das ciências é a (1) Teórica, que por sua vez, se divide em (a) Intelectível, (b) Inteligível e (c) Natural. A intelectível é a Teologia, que é divina; a inteligível é a matemática; e a natural, a física (considerada aqui como fisiologia). É interessante que, dentro da Matemática, é feita 4 subdivisões: Aritimética, Musica, Geometria e Astronomia; à Musica pode ser do mundo - o movimento do mundo como harmonia musical a ser regida pelo Maestro Divino -, dos homens e dos instrumentos - feitos pelos homens; já a geometria se divide em altimetria, planimetria ou cosmometria; e a Astronomia é como que um complemento da Geometria e vice versa, uma vez que a primeira considera os entes enquanto tem movimento, e a segunda enquanto são imóveis. Vale também pontuar que Astronomia aqui distingue-se de Astrologia, uma vez que a primeira estuda a lei dos astros enquanto são moventes (astros-nomos), e a segunda estuda o "discurso dito pelos astros", podendo ser subdividida em supersticiosa - que vê nos astros uma influencia nas coisas contingentes e no livre arbítrio -, e natural - que estuda a composição dos corpos e sua moderação pelos corpos superiores quanto à saúde, fertilidade, etc.

A terceira na ordem das ciências é a (2) Filosofia Prática, que por sua vez se divide em (a) Solitária - diz respeito aos indivíduos - ética e moral; (b) Privada - diz respeito aos pais de familia e se divide em econômica e administrativa; (c) Pública, que diz respeito àqueles que são administradores da cidade, e se divide em civil e política. A ordem dos indivíduos entre si precede o estudo da ordem deles enquanto sujeitos a autoridade familiar, e a ordem familiar precede à ordem pública e esta última tem apenas caráter subsidiário sobre a família.

A quarta e última ordem, a (3) Mecânica, se divide na produção de (a) elementos internos e (b) elementos externos. Pouco se tem a falar desta.
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Após responder as perguntas acerca do que deve se ler e da ordem das leituras, passemos ao terceiro e último preceito: Como devemos ler?

Hugo de São Vitor inicia a resposta pontuando três coisas necessárias ao estudo: (i) a natureza, (ii) o exercício e a (iii) disciplina. Aos nossos ouvidos contemporâneos parece absurdo afirmar algo tão obvio: nem todos tem a mesma disposição para os estudos, e as disposições naturais de uns são mais favoráveis à vida intelectual que a de outros; isto não quer dizer que os intelectuais são mais dignos em absoluto do que os homens simples, mas sim que possuem talentos diferentes que devem frutificar, à medida de suas capacidades, e por isso assim como para atividades artísticas uma certa sensibilidade estética é exigida, nas atividades intelectuais uma certa capacidade intelectual e discursiva mais acurada é exigida.

Em outras palavras, a vida intelectual como tal é uma vocação (e assim é tratada no clássico de A.D Sertillanges), e esta característica de chamado (vocare) pressupõe também que Aquele que chama dispôs-nos para aquilo para que nos chama - "a Graça não tolhe a natureza, mas a supõe e aperfeiçoa". Esta realidade foi magnificamente exposta por Dante Alighieri em sua Divina Comédia (Editora 34,2014) quando diz em seus versos:
Sempre Natura, se a si desafeito                                                                                           ambiente encontra, tão como semente                                                                                 fora de sua região, tem mau proveito.
Se o mundo, embaixo lá, pusesse a mente                                                                            na, que Natura deu, distribuição,                                                                                        e a acompanhasse, boa seria a sua gente;                                                                           
mas vós torceis para a religião                                                                                              um que nasceu para se cingir da espada,                                                                            e tornais rei quem apto é pra sermão;
e é o nosso rumo assim fora da estrada
(Paraíso, Canto VIII, 139-148) 
Mas além da natureza, das disposições naturais e gosto pelo estudo e pelo labor intelectual, é necessário o exercício. É preciso que exercitemos as nossas disposições naturais para o seu melhor desempenho, e não faze-lo seria o equivalente à parábola evangélica do empregado que enterrou os seus talentos; de fato, não adiantaria de nada a boa disposição da natureza, se o homem não exercita e aperfeiçoa seus talentos, se é preguiçoso e disperso, se é cheio de paixões baixas que não luta para vencer. É preciso exercitar-se na atividade intelectual.

Por fim, a disciplina é necessária ao estudo, sendo considerada como a conjunção perfeita entre os bons costumes e o conhecimento. O homem disciplinado, sendo preso a uma rotina com disciplina rigorosa, se torna o homem mais livre para o exercício de suas atividades com excelência. O desordenado, o indisciplinado, este sim, com sua "liberdade" é escravo das contingencias, imprevistos e desordens nos estudos. A virtude da ordem, da disciplina, é a virtude da liberdade.

Tanto a o exercício quanto a disciplina podem ser entendidos também sob uma clave moral, uma vez que a disciplina também tem de ser das paixões e dos sentidos, ordenando-os numa harmonia interior que não os faz dispersar do trabalho intelectual. A antropologia realista de S. Tomás de Aquino mostra essa realidade muito claramente: ora, se o conhecimento inicia-se nos sentidos, e portanto, a dimensão corpórea está substancialmente à dimensão intelectual/anímica (anima forma corporis), então qualquer defeito ou sensibilidade desordenada há de ser um obstáculo grande na percepção da realidade; mais uma vez aqui se mostra a maneira íntima em com a qual estão unidas a vida moral e intelectual. Essa ligação entre antropologia/psicologia e vida intelectual será melhor investigada nas próximas postagens.


(Na próxima parte, aprofundaremos o estudo dos conselhos mais particulares, que podem ser úteis para o melhor aproveitamento das leituras, anotações e exposições. Continua....)

Estudos da Suma Teológica - Os Atos Humanos: Sua Natureza, Estrutura e Dinamismo - Parte I (I-IIae, Q. 6-17)

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Q. 6.: O Voluntário e o involuntário

  • O voluntário se encontra nos atos humanos: contém em si seu principio de movimento e o conhecimento do fim.
  • Os animais possuem um voluntário imperfeito: só apreende o fim, não a razão do fim, e nem a proporção do fim.
  • O voluntário pode existir sem ato: querer, não querer.
  • A vontade não pode sofrer violência.
  • A violência causa o involuntário, pois se opõe diretamente ao voluntário.
  • O medo não causa o involuntário de modo absoluto.
  • A concupiscência não causa o involuntário. 
  • Nem toda ignorância causa o involuntário. Existem tres tipos de ignorância:
    • Por concomitância: acompanha a ação sem a influenciar
    • Por consequência: é causada por um ato de vontade
    • Por antecedência: se quer porque se ignora.
Q.7:Circunstância dos atos humanos
  • É um acidente do ato humano.
  • As principais são "por quê" e "o que se faz".
Q. 8: A vontade e seu objeto.
  • A vontade é somente do bem. Tudo aquilo que é apreendido in ratione boni.
  • A vontade é do fim e daquilo que é para o fim.
Q.9.: O que move a vontade
  • O intelecto, o apetite sentitivo, ela mesma, principio exterior (ex: objeto), Deus.
Q.10.: O modo de mover-se da vontade
  • Naturalmente (ao bem universal).
Q. 11: A fruição, que é ato da vontade; 
  • Santo Agostinho: "Fruir e ligar-se amorosamente a alguma coisa por si mesma."
  • Fruir é ato da potência apetitiva.
  • As criaturas irracionais, o frui é imperfeito.
  • A fruição é só do Fim último (em seu sentido próprio) - simpliciter. Mas dos fins relativamente últimos, a fruição pode ser dita secundum quid.
  • Há fruição tanto no fim possuido, quanto no fim não possuido (imperfeitamente).
Q. 12.: A intenção - e seu objeto (a.1-2), seu ato (a.3-4), e se há nos irracionais (a.5).
  • É ato da vontade - tender para alguma coisa - relativamente ao fim; isso pode ser de 3 modos: (i) absolutamente - vontade -, (ii) enquanto nele repousa - fruição -, (iii) enquanto este é o termo de algo ordenado para ele - intenção.
  • Não é somente do Último Fim, mas o fim enquanto é termo do movimento da vontade.
  • Definição: "ato da vontade incidindo sobre o seu fim, fim último, primeiramente, fim intermediário depois."
  • Pode-se, ao mesmo tempo, ter intenção do fim próximo e do fim último, como elaborar o remédio e a cura.
  • Um só movimento é a intençao do fim e a vontade do que é para o fim.
  • Não há intencionalidade propriamente dita nos animais, uma vez que não tem intenção do fim.
Q.13.: A eleição do que é para o fim pela vontade.
  • É ato da vontade, da potência apetitiva, pois termina no movimento da alma para o bem que escolheu. Mas é a razão que lhe dá a forma. Íntima ligação.
  • Não convém aos animais, que não tem vontade, que é substancia da eleição. O apetite sensivel por si não é capaz de eleger.
  • Eleição é como conclusão do silogismo prático. 
  • O fim enquanto fim não é objeto de eleição.
  • A eleição é sempre dos atos humanos, não do fim; somente de coisas possiveis.
  • A eleição do que é para o fim é livre; a eleição do fim, não: se dá necessáriamente (a beatitude)
Q.14.: A deliberação (consilio), que precede a eleição.
  • A deliberação é do que é para o fim.
  • Investigação, conselho (consilio); implica comparação feita entre muitas coisas. 
  • A deliberação tem por objeto nossas ações.
Q.15: O consentimento (consensu), que é ato da vontade, comparado com aquilo que é para o fim.
  • É ato da potencia apetitiva.
  • Implica a aplicação do sentido a algum objeto.
  • Designa a aplicação do movimento apetitivo a alguma coisa ja existente no poder de quem a aplica.
  • Ordem operativa: apreender o fim→apetite do fim→deliberação das coisas que são para o fim→apetite das coisas que são para o fim.
  • A aplicação do movimento apetitivo à determinação da deliberação é propriamente o consentimento.
Q. 16: O uso, que é ato da vontade, comparado com as coisas que são para o fim.
  • Santo Agostinho> "Usar é assumir algo pela potencia da vontade."
  • O uso de uma coisa implica sua aplicação a uma ação.
  • Fruir é melhor que usar; porque aquilo que é absolutamente apetecível é melhor do que é apetecível relativamente a outro.
  • Não se usa o Último Fim, se frui Dele.
  • O uso segue-se à eleição.
Q.17.: Os atos imperados pela vontade.
  • Imperar é próprio da razão. Impera sobre a vontade absolutamente: isto é para ser feito [hoc est faciendum]; intimação: faz isto [fac hoc].
  • Imperar é ato da razão, pressuposto o ato da vontade em virtude do qual a razão move por império para o exercício do ato.
  • O império precede o uso enquanto esta na razão que o refere ao fim. Mas o uso daquele que é para o fim, enquanto esta sujeito a uma potência executiva, segue-se ao império.
  • O ato da vontade e o ato da razão são imperados, os movimentos do corpo e o apetite sensitivo também. Só os da potência vegetativa não são.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O que é ser pessoa? Algumas formulações da "antropologia apofática" de Robert Spaemann

Este pequeno ensaio é uma homenagem ao grande filósofo alemão Robert Spaemann, falecido no dia 11/12/2018, que teve uma obra vasta e importante para a filosofia contemporânea. Conheci sua obra a partir de uma pesquisa que iniciei ano passado no Grupo de Pesquisa "Tradição da Lei Natural" na linha de "Bioética, Lei Natural e Direito à Vida", e quando tive em mãos pela primeira vez o livro que iremos comentar aqui, minhas impressões sobre o autor não foram as melhores: sua escrita parecia confusa, desordenada, dispersa, e muitas outras características que me fizeram desistir de ler na metade, sem conseguir tirar lição substancial alguma. Até que um dia tive em mãos uma dissertação de Matthew A. Schimpf, cujo nome era "The Theory of Person in Robert Spaemann's Ethical Assentiments", que foi capaz de sistematizar as formulações do livro do autor e que me fez redescobrir sua obra e compreender sua grandeza e profundidade. Depois dessa leitura, tudo o que vem do Spaemann parece ser uma oportunidade de aprofundamento; se tornou um dos autores indispensáveis ao estudo.
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No livro relativamente denso e complexo do autor, Pessoas: Ensaios sobre a Diferença entre Algo e Alguém (UNISINOS, 2015), ele busca responder a pergunta: o que significa ser "pessoa"? A qual realidade este termo remete? E se remete a alguma realidade, esta realidade é uma realidade objetivamente constatada e experimentada, ou é subjetivamente construída ou aferida?

Entre as diversas abordagens sobre o tema, é clássica a genealogia do conceito de pessoa que parte dos gregos e suas peças teatrais (prosópon), passando pelo uso jurídico da civilística romana (persona), até chegar a reflexão da teologia católica do Concílio de Niceia e Constantinopla, que reafirmaram a Natureza Divina de Cristo e formularam de forma mais precisa a realidade fundamental da Fé Católica: a Doutrina da Trindade.  Nesta abordagem teológica, se explica por meio deste termo de que forma Deus pode ser Uno, e ao mesmo tempo três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo, e como são realmente distintos, ainda que sejam da mesma natureza, Deus.

O ponto central para o conceito de pessoa, tal como conhecemos hoje, se deu a partir da formulação de Severino Boécio, que ao tratar do mesmo tema - i.e. natureza divina - , formula que pessoa é "substantia individualis naturae rationalis" , e dá à sua definição um substrato ontológico bem preciso, que será aprofundado na reflexão posterior. Ja Ricardo de São Vitor, complementa a definição a partir da substituição da palavra "substantia" para "existentia", na qual vê que a realidade à qual nos referimos ao dizer "pessoa", é muito melhor descrita ao falar não da natureza racional abstrata, mas sim da realização existencial individual dessa natureza, daquele que subsiste nesta natureza.

Tomás de Aquino, também segue a definição de Boécio e fornece em seu Tratado do Homem (I, Q. 75-87) um aprofundamento na constituição anímico corpórea do ser humano, como animal racional, e como distinto e elevado com uma eminencia superior à do resto da criação por sua capacidade de atividades que superam muito a matéria corporal (como as atividades intelectuais, a possibilidade de conhecer a Deus, etc), e por seu destino sobrenatural. E por aqui, já se desenha aos poucos um sentido que vai além de um simples status ontológico, mas traz também um sentido axiológico: pessoa não designa simplesmente uma realização existencial de uma natureza racional, mas se compreende que por essa eminencia na ordem do ser, este termo é também um nomen dignitatis, um termo que remete a uma dignidade que as pessoas tem.

Considerando também a linguagem ordinária, percebe-se que este termo remete a esta dignidade. Aqueles a quem chamamos de "pessoas" são dignos de um certo tratamento que é uma resposta adequada ao seu valor de realidade pessoal. Não é estranho quando dizem : "não trate ele assim, pois ele é uma pessoa", e parece que o sentido da frase não seria o mesmo caso substituíssemos "pessoa" por "homo sapiens"; e dessa forma, a linguagem comum nos atesta estes dois aspectos objetivos da realidade pessoal: ontológico e axiológico.

Se por um lado é verdade que estas formulações objetivas nos livram de cair em um subjetivismo ou arbitrariedade quanto às pessoas, por outro lado não são capazes de expressar a realidade de sujeito, a perspectiva subjetiva das pessoas. A perspectiva personalista de matriz tomista, que tem Robert Spaemann como um de seus maiores expoentes - juntamente com Karol Wojtyla, Dietrich von Hildebrand, Gabriel Marcel, Elio Sgreccia -, busca fazer uma síntese entre a filosofia do ser de Tomás de Aquino (aspecto objetivo) e a filosofia da consciência de influência de Edmund Husserl (subjetividade - não subjetivista), e apresentar a pessoa não apenas em seu aspecto objetivo, a partir da perspectiva de terceira pessoa, mas também considerando o aspecto do sujeito em primeira pessoa (obviamente, com o substrato ontológico de matriz realista da filosofia tomista).

Por não tratar a pessoa apenas sobre este aspecto do observador, mas complementando este aspecto com o aspecto subjetivo, Spaemann acaba por criar várias formulações de aspectos da pessoa humana, que, ao invés de consistirem em descrições positivas sobre a natureza humana e seu caráter pessoal, parte de uma descrição antropológica que alguns de seus comentadores chamam de "antropologia apofática", relacionando este método com a reflexão da teologia apofática, formulada por Pseudo- Dionísio Areopagíta, que afirma que de Deus não podemos dizer o que Ele é, mas somente o que Ele não é. Isto é, mais preciso seria dizer que Deus é a-temporal, sem limitação nenhuma a seu poder, imortal, e outros adjetivos que se referem mais à formulações negativas do que positivas.

Se por um lado, o método do Pseudo Dionísio se fundava na incapacidade de apreensão da essência divina, o método de Spaemann não tem esta mesma justificativa. Mas Spaemann vê na realidade pessoal uma eminência que não pode ser apreendida simplemente como um experimento empírico de laboratório; pelo contrário, a pessoa é tão eminente, que sua formulação pode explicitar o quanto a pessoa não se reduz à sua natureza da mesma forma que os outros seres vivos se reduzem.

Dizemos ser pessoas aqueles que, subsistindo em uma natureza racional, são capazes de transcende-la de certa forma, de auto-transcendência. Essa auto-transcendência é formulada nos termos de (i) Descentramento, (ii) Negatividade. Esses termos, que expressam mais uma negação ( des- centramento; negatividade) são o "elemento apofático" da antropologia personalista do autor.

Em primeiro lugar, a capacidade de descentramento mostra que a pessoa é capaz de distanciar-se de suas paixões, intenções, desejos, etc. Ainda que esteja de certa forma sujeito a eles, é capaz de manter uma distancia como um observador em terceira pessoa, de relativizar a si mesmo, de analisar-se e colocar-se como fenômeno; esta capacidade de objetivação e auto-relativização revela a importante distinção que se deve fazer entre pessoa e sua natureza. Talvez por essa razão teremos de concordar com a formulação de Ricardo de São Vitor, que ao falar em "existentia" é capaz de explicar essa realidade da realização individual da natureza racional, que talvez a palavra "substantia" de Boécio poderia obscurecer, caso fosse considerada como tradução de "Physis" ou "ousia", que seria o equivalente à falar em natureza ou substancia. Essa capacidade de distanciamento pressupõe uma diferenciação interior do ser humano em relação a si mesmo, e esta diferenciação é consciente nos seres humanos, e não o é nos outros animais. Spaemann explica que,
[f]alando de si mesmo na terceira pessoa, o ser humano abandona a posição central que todo ser vivo natural assume na relação com seu ambiente e através dos olhos dos outros se vê  como um acontecimento no mundo. Para ver-se desse modo, ele precisa assumir um ponto de visa fora de si mesmo, fora de seu centro orgânico. A moralidade só é possivel com base nessa capacidade de auto-objetivação e, desse modo, de auto-relativização. (SPAEMANN, 2015, p.20)
Em segundo lugar, a segunda formulação foi a partir da negatividade. Ele inicia seu capitulo 4 com as seguintes afirmações:
Pessoas não são simplesmente o que são. Elas são determinadas por uma diferença em relação ao que são, por um momento de negatividade. A negatividade diferencia o existente vivo do existente não vivo. Na pessoa, ela experimenta sua intensificação máxima. (SPAEMANN, 2015,p.  39)
A negatividade está ligada à formulação da auto-transcendência. E significa que as pessoas não estão presas a um determinismo de natureza, e que podem de certa forma transcende-la, uma vez que - como ja foi dito -, pessoa não é tanto a natureza racional abstratamente considerada, mas sim um modo especifico das naturezas racionais se concretizarem individualmente - como Ricardo de São Vitor diria, um modus existentiae. Essa negatividade em relação ao que são - isto é, sua natureza - se dá uma vez que consideramos que as pessoas não são sua natureza, mas "tem" sua natureza. Podemos dizer então que
[n]o conceito de pessoa, concebe-se um ser original próprio ainda mais original do individuo particular. Não é como se tais indivíduos não tivessem natureza e tivessem de decidir por si mesmos o que eles são. Mas eles podem adotar um comportamento a mais em relação a essa sua natureza. Eles podem se apropriar de suas leis essenciais em liberdade ou transgredi-las e 'ficar desnaturados'. Por essa razão, enquanto entes pensantes eles podem ser denominados não só como pertencentes à sua espécie, mas também como indivíduos que 'existem em tal natureza'. Isso quer dizer: eles existem como pessoas. (SPAEMANN, 2015, p. 33)
A terceira formulação, seria a da auto-transcendência em termos positivos. Ja vimos que as formulações negativas são como que um elemento apofático que nos ajuda a distinguir as pessoas do mundo das coisas que simplesmente são. Essa terceira formulação, certamente já de certo modo tratada nas duas formulações anteriores, é a liberdade da pessoa em relação à sua natureza. Com o que ja ficou dito, a pessoa é um modo de existir em uma essência racional, e não essa natureza racional mesma, e isto quer dizer que a pessoa não se reduz aos seus atributos, mas de certa forma os possui. Possuir é próprio das pessoas, mas ser possuído é próprio das coisa.

Dois esclarecimentos são necessários prevendo duas possíveis objeções. A primeira, poderia ser de que Spaemann formula uma teoria dualista que hipostasia o self que "dirige" a natureza como se fosse um instrumento da pessoa, e que desconsidera a importância constitutiva da natureza para a pessoa; a segunda objeção possível seria de que, ao formular que a pessoa "possui" uma natureza e possui uma liberdade em relação a ela, Spaemann estaria defendendo uma tese que poderia ser formulada para defender várias teses desconstrucionistas, anti-metafísicas, etc, como se a pessoa pudesse desconstruir sua natureza racional como se ela fosse mero elemento acidental à ela.

A primeira e a segunda objeção poderiam ser respondidas ao explicar que, quando se fala em auto-transcendência e suas formulações, se busca não apenas fazer uma descrição ontológica da natureza humana da mesma maneira que se descreve a natureza de um sapo, por exemplo. Aqui se quer apenas dizer que, ainda que seja verdade que o ser humano é de certa forma sua natureza (por ser a realização individual de uma natureza racional), e que ele é por natureza um ente corporal, e que essa dimensão corporal é essencial e manifesta a pessoa - e manifestando o interior, a dimensão exterior é parte constitutiva da pessoa -, a pessoa de certo modo é capaz de atitudes que são inexplicáveis sem o recurso das formulações negativas e da auto-transcendência. É impossível explicar por meio do simples recurso à natureza o auto-sacrifício ou do martírio, ou mesmo a capacidade de perdoar ou prometer, a possibilidade das maiores crueldades e ao mesmo tempo a possibilidade de ser virtuoso - e em última análise, um santo. Se quer apenas dizer que a ação pessoal não é determinada por fatores da natureza de forma tão definitiva que não possa ser elevada pela pessoa humana. Viktor Frankl (1905-1997) experimentou essa capacidade humana única de elevar-se e rebaixar-se, que não pode simplesmente ser descrita como consequências causalmente determinadas por determinada circunstância. Ele diz sobre sua experiencia no campo de concentração:
Nossa geração é realista porque chegamos a conhecer o ser humano como ele de fato é. Afinal, ele é aquele ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; mas ele é também aquele ser que entrou naquelas câmaras de gás de cabeça erguida, tendo nos lábios o Pai-Nosso ou o Shemá Yisrael. (FRANKL, 2011, p. 176)
Há portanto, um certo núcleo pessoal que está livre dos determinismos circunstanciais e mantem uma certa liberdade até com suas próprias disposições naturais.

Esta não é uma exposição exaustiva das formulações de Robert Spaemann, mas apenas uma tentativa de sistematizar o que as vezes parece confuso em sua obra e suas formulações. De certa forma, essas formulações por vezes imprecisas dão margem para incompreensões e críticas muitas vezes infundadas. Mas que este pequeno texto possa ter sido útil para os que procuram se aventurar na obra deste grande filósofo e descobrir algumas características que distinguem "algo" de "alguém" .
  

 

A Fama irrecuperável: As consequências da calúnia.

                                 Extemplo Libyae magnas it Fama per urbes, /                                   Fama, malum qua non aliud vel...